sábado, 28 de novembro de 2009

Interregno

Caros leitores,

O relógio parou nessas 60 e poucas crônicas. Fidel continua lindo, amável, sábio, já um tanto velhusco e encanecido. Mais merecedor do que nunca das cartas que lhe dedicava seu dono e discípulo espiritual e intelectual, porém as circunstâncias vêm escrevendo capítulos nos quais tais missivas não têm encontrado espaço.

Quem sabe um dia desses eu volto. Enquanto isso, fiquem com esta brincadeira que fiz no Wordle, mostrando a nuvem de termos usados nessas mal digitadas, da primeira à última crônica. Para mim, foi interessante conferir não apenas os temas abordados, mas algumas curiosas formações aleatórias (pela proximidade e sequência com que alguns termos apareceram na figura - clicando sobre ela dá para enlarguecer e ler melhor). Até um dia.

Mário Eriberto Frossard

sábado, 18 de abril de 2009

Prevendo 2006

Última crônica de uma era, que seria publicada em março de 2007, mas não o foi devido ao fechamento d’O Taquaryense. Com a mobilização da comunidade, o jornal reiniciou as atividades em meados de 2007.

Fidel, é virada de ano e novamente amolecemos nossos corações, dispostos a nos enganar e cair em qualquer conto-do-vigário. Fazemos qualquer coisa para continuar acreditando em Papai Noel.

Pai Mário junta envelopes de engov amassados que, à guisa de búzios, joga para prever o que será o ano de 2006. Sim, continuo contra a corrente, fazendo o difícil, que é prever o passado, enquanto outros bidus sem imaginação fazem previsões para o ano vindouro.

Mas, peraí... Há alguma interferência na minha antena sobrenatural. Vamos combinar assim, Fidelito: pelo menos uma das previsões a seguir é furada. Não sei dizer qual – todas são inacreditáveis e plenamente possíveis de acontecer no Brasil.

Em 2006 a cidade de São Paulo resolverá, de forma abrupta e completa, seus problemas de engarrafamento, roubos e falta de policiamento. O feito será creditado a um grande líder político. O nome dele... Marola, Carola... Fidel, dá uma pancadinha aí na antena futurista porque eu não estou conseguindo ver direito. Ah, valeu: Marcola1.

Um brasileiro irá para o espaço. Curiosamente, será um astronauta – e tanta gente querendo mandar certos políticos e tantas figuras tenebrosas para a estratosfera...

A Copa 2006 será plena de sucesso para o Brasil. Não seremos campeões, até porque ninguém estará a fim, mas os objetivos traçados serão todos atingidos – Ronaldo Gorducho será o maior artilheiro de todas as copas; Cafu será o recordista brasileiro de atuações em copas.

O governo e o partido do presidente continuarão aprontando em 2006. Apesar de tudo, o presidente vai se reeleger porque a oposição conseguirá ser pior. O candidato oposicionista será um sujeito que virá com uma conversa para lá de mole, que eu achava que estava sepultada desde Jânio Quadros, Fidelito. Me enganei. E assim seguiremos firme, rumo às trevas.

O espaço aéreo brasileiro será palco de um dos maiores shows de incompetência da história da humanidade. Fidel, dá uma cacetada bem forte na antena. Não pode ser... Eu estou vendo aqui que nenhuma autoridade (ir)responsável será demitida. Não pode ser verdade. Perdão, leitor. Perdão, leitora. Esquece essa previsão, meu aparelho de ver o futuro deve estar enguiçado.

Câmara e Senado votarão uma lei que permitirá a deputados e senadores bater a carteira e passar a mão no popô de qualquer cidadão pagador de impostos. Tentarão aprovar também o direito de encilhar e andar de cavalinho nos cidadãos, mas preferirão poupar os cofres públicos – as encilhas iriam custar muito caro.

A cidade do Rio de Janeiro, berço do flanelinha e de outras pequenas extorsões e estelionatos adotados pelo Brasil inteiro, verá concretizada a transferência do poder público para os traficantes, após décadas de cuidadoso planejamento. A culpa será da imprensa, que distorce tudo porque tem má vontade com o Híiu.

O Inter será campeão do mundo. Com um time reserva (ou coisa parecida). Com o Clemer de goleiro. Com o Abel de técnico. Com gols de uns guris de 17 e 19 anos na semifinal. Com gol do Adriano Gabiru na final. Contra o Barcelona, a seleção das seleções. Não me xinga, Fidel! Eu apenas estou te contando o que dizem os búzios. Já falei no início que alguma das previsões era furada; deve ser esta... Mas vou te contar: que festa! Ou esta é a previsão mais furada de Pai Mário, ou a seleção das seleções, o Barcelona, foi imobilizada, levou lençóis e outros dribles e caiu para não mais levantar diante do glorioso Colorado dos Pampas!



1 Marcola – Bandido, ou... como dizer de forma politicamente correta... Cidadão adepto da solução sumária de problemas e comerciante do ramo de tóchicos que em 2006 transformou-se no redentor da cidade de São Paulo. Fez o que nenhum político sequer chegou perto de conseguir: acabou com os engarrafamentos, roubos e falta de policiamento. Por alguns dias, a terra da garoa foi um lugar tranqüilo. Aterrorizado, mas tranqüilo.

sábado, 11 de abril de 2009

Internet cacete

Publicada n'O Taquaryense em 4 de novembro de 2006.

Fidelito, já encheu o saquinho esta enxurrada de e-mails atribuídos a escritores famosos que abarrota minha caixa postal. É sempre igual: sujeito chato, que se acha escritor, destila sua chatice num texto trôpego e o espalha pela web, atribuindo-o falsamente a algum figurão, na esperança de que passem adiante. Passam.

Já atribuíram a García Márquez um discurso piegas sobre um suposto câncer. Já atribuíram ao Luís Fernando Veríssimo umas gracinhas pouco engraçadas. Mas, como em toda a regra, há exceção: a Sara, aquela garota de Floripa, escreveu o "Quase", texto dor-de-cotovelo que alguém (ela jura que não foi) jogou na web com o nome do Veríssimo e criou fama.

“Quase” foi parar numa coletânea francesa (foi mesmo, não foi quase), matando duas cobras na mesma cacetada: provou o talento da menina e a universalidade da picaretagem. A francesa que se apropriou do texto "do Veríssimo" sequer o consultou – imagina se pagou os direitos autorais... A França não é um país sério.

Recebi um e-mail atribuído ao João Ubaldo Ribeiro. Podre. Como se o baiano fosse fazer esse discurso moralista que eu estou lendo - que no Brasil todo mundo é desonesto, bibibí, bobobó, com cinco pontos de exclamação (!!!!!) – prova inequívoca de que o autor não vive de redigir. Que no Brasil nunca vamos comprar jornal como no exterior, onde o sujeito bota a moeda, abre a caixa de jornal, tira um exemplar só e fecha a caixa de novo.

Tá bom. Tanta civilização ainda é sonho para nós. Mas, peraí... Achar que só a gente é picareta é um erro básico. A gente é vira-lata, isso sim - rouba-se e picareteia-se por qualquer trocado no Brasil. Qualquer mané rouba, não é preciso grande talento.

Porém, a picaretagem existe no mundo inteiro e é irreal esperar que suma. O que nós temos de particular é a democracia: tanto o juiz Lalau quanto o Zé das Couves roubam e se consideram cidadãos de bem. Eles não são “qualquer um”.

A última que me veio empestar a caixa postal é uma baboseira sobre uma tal “Sociedade dos Amigos de Plutão”. Segundo o e-mail, seria mais uma trambicagem do PT: uma ONG para promover o retorno de Plutão à condição de planeta (rebaixado que foi a asteróide, coitado).

A ONG receberia dinheiro público para pagar seus 800 diretores, a 20 mil reais por semana. Inclusive, o presidente Lula teria liberado 7,5 milhões de reais para a Sociedade. [Parênteses não bastam; aqui eu preciso abrir colchetes: faz a conta, Fidel, e vê que essa grana só pagaria 3 dias de salários da diretoria – para que tanto auê por essa mixaria?]

Só um sem-noção acreditaria numa besteira dessas, né Fidelito? Ou não. O jornalista Cláudio Humberto (porta-desaforo do ex-presidente Collor, lembra, Fidel?) denunciou a liberação da verba. O nobre senador Heráclito Fortes leu e, com a mesma falta de espírito crítico (na falta dela, o rigor jornalístico de verificar a verdade também teria resolvido o problema), defendeu a criação de uma CPI.

O bacana da vida moderna (tinha que ter alguma vantagem) é que está tudo aí para a gente conferir: o mico do senador foi parar no YouTube. A radiografia completa da besteira, incluindo link para a coluna claudiohumbertiana, está em www.quatrocantos.com/LENDAS/.

domingo, 5 de abril de 2009

Eu contra três

Publicada n'O Taquaryense em 23 de setembro de 2006.

Fidel, como tu bem sabes, temos a difícil, ingrata, lamentável tarefa de escolher, até outubro, nossos representantes na presidência da república, senado, câmara federal, governo do estado e assembléia legislativa estadual. A informação disponível para isso é nossa memória, musiquinha, a cara do sujeito ou da sujeita e alguma frase besta que o postulante declama, apanhando do teleprompter.

E a ficha corrida do boneco, para a gente saber de quantos anos de cadeia o estamos livrando? Pois, uma vez eleito, a impunidade parlamentar garante o indulto e o engavetamento do processo. Ê trem bão!

E o boletim escolar, para saber se estamos elegendo um burro esperto? E o psicotécnico, para saber se vamos sentar nas poltronas macias da casa executiva ou legislativa um maluco de atar? E a transcrição ipsis litteris de todas as declarações de renda já apresentadas à Receita Federal pela personagem? É isso que eu quero saber, postado na internet. Podem me poupar de musiquinha e papo engana-coió.

Para os que já deputam e querem deputar mais, eu quero a relação completa dos votos que deu até hoje e o índice de freqüência ao trabalho. Quer se reeleger? Pois eu quero saber como vossa excelência deputa. Sem dispensar a ficha corrida, o boletim, o psicotécnico...

Querem que eu pague essa campanha fraudulenta com um tal “financiamento público de campanha”. É ruim, hem? Se fossem pessoas físicas, Fidelito, o tribunal eleitoral, os partidos políticos e as produtoras de vídeo seriam presos por estelionato e formação de quadrilha. Ou o que tu farias com quem constrange o cidadão a financiar propaganda enganosa? A propaganda eleitoral gratuita é o conto do vigário em escala industrial e nacional.

Falam no financiamento público de campanha como se já não existisse. E quem é que paga o tempo da TV? E os partidos não recebem gordas boladas? Que fique claro, então: o financiamento público de campanha já existe; eles apenas estão querendo mais, muito mais.

Eu nunca ouvi falar de alguém que decidiu votar em um candidato porque viu um cartaz ou um anúncio no rádio ou TV. Muito menos porque participou de alguma das modalidades mais estúpidas de propaganda política - showmício e carreata. No entanto, é nessas coisas que muitos candidatos enterram boladas de dinheiro.

Eles devem ter razão. Eles sabem como votam os 75% de analfabetos do Brasil. Eu é que não sei. Mas não me digam que o Congresso é um espelho do Brasil, porque não é. Lá, muito poucos são analfabetos. Aqui fora, no Brasil, os bandidos não têm mesada e sigilo garantido.

Não me julga mal, Fidel. Não tenho nada contra os políticos, muito pelo contrário. Outro dia, ouvi falar de um deputado candidato a voltar à câmara federal que sabe o que é ciência e para que serve. Saquei rápido caneta e folha de papel. Resolvi 1/5 do problema; só falta escolher o resto dos meus candidatos.
Mas, eis que surge no horizonte uma luz. Há gente interessada em mostrar detalhadamente quem é cada candidato. São essas ongues. Talvez eu dê algum dinheiro para elas. O quê? Pensaste que o financiamento público de campanha iria para quem quer informar o eleitor? Tolinho! Isso não interessa ao tribunal eleitoral, aos partidos políticos e às produtoras de vídeo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Tapir Hirsuto e os concursos públicos

Publicada n'O Taquaryense em 5 de agosto de 2006.

Caro Fidel, desde que te apresentei o emérito professor doutor Tapir Hirsuto, o homem não parou mais de se exibir. A grande influência do ilustre acadêmico se fez notar, recentemente, nos concursos públicos realizados por certas universidades federais (espero que não inclua a minha alma mater, Fidelito, a gloriosa UFRGS).

Pois Tapir e seus amigos deram para impor a mediocridade compulsória e fazer barreira para a competência. A idéia é simples: cada concurso exige diplomas específicos que o cidadão tem que ter. Não importa se o candidato é o maior expoente mundial da área do conhecimento. Não importa se os alunos estudam nos livros dele. Não importa se tem mais publicações científicas no assunto do que toda a banca que o julga.

É preciso ser um Tapir Hirsuto para impedir um Piaget de lecionar para Pedagogia. “Sabe o que é, seu Piaget, é que para entrar para o Departamento de Pedagogia da Universidade Federal de Cacimbinha tem que ter diploma de Pedagogia. Como o senhor é biólogo, não dá”.

O mesmo vale para outras panteras que não poderiam nem miar nas nossas universidades. O sociólogo Tom Davenport não poderia lecionar para Administração. É preciso ser um Tapir Hirsuto para barrar o talento e fazer da mediocridade o máximo admissível. Só no Brasil.

Pois é, Fidelito. Enquanto nós damos tanta importância a um pedaço de papel chamado diploma – uma espécie de prisão perpétua na cela coletiva dos obtusos que fizeram o mesmo curso –, os gringos do chamado “primeiro mundo” nem ligam para este tipo de cartório acadêmico. Chegam até a perdoar pequenos e grandes trambiques para que uma “fera” possa trabalhar.

Olha dois exemplos, um de pequeno deslize e outro de grandes crimes: o ator norte-americano James Woods começou a carreira sem ter estudado interpretação, mentindo e convencendo que era inglês de Liverpool para ganhar seu primeiro papel. É ou não é um grande ator? Fez Ciência Política no Massachusetts Institute of Technology e tem um QI acima de 180.

O outro exemplo é Frank Abagnale Junior, interpretado no cinema por Leonardo Di Caprio. Com 136 de QI, roubou milhões de dólares aos 19 anos com suas falsificações, além de enganar brilhantemente como professor, piloto de avião, advogado e médico. Foi preso, foi contratado pelo FBI e, tempos depois, enriqueceu como consultor em segurança contra fraudes.

Pensando bem, já que falamos em QI, bem que o emérito professor doutor Tapir Hirsuto poderia cair em desgraça e dar espaço para Koko, a gorila, que fala a língua de sinais e tem QI de 90, pouco menos do que um ser humano de inteligência mediana. Seu vocabulário é de umas 500 palavras (eu ia dizer algo sobre nossos universitários; melhor não...).

Koko dá respostas simples e sensatas. Perguntada se gostaria de ter um gato, um cachorro ou outro gorila como amigo, foi taxativa: “Cachorro” (eis que não são só os humanos os desiludidos com os de sua espécie). Se perguntássemos “O que tu achas dos concursos públicos nas universidades brasileiras?”, ela certamente responderia: “Burrice”.

Ela é uma ativista política e formadora de opinião. É palestrante de sucesso e já fez vídeos educativos, como podemos ver em seu sítio na web (www.gorilla.org). Abaixo Tapir Hirsuto! Koko para ministro da Educação!

terça-feira, 31 de março de 2009

Lá vamos nós, outra vez

Publicada n'O Taquaryense em 29 de julho de 2006.

Caro Fidel, a campanha ainda não começou quando escrevo estas mal traçadas, mas não tenho medo de errar ao dizer como vai ser mais uma emocionante corrida eleitoral. Por favor, Fidelito, chega de xingar os deputados e botar a culpa neles por tudo de ruim que há neste país. Eles são uma parte da ruindade, mas não têm competência para fazer a encrenca sozinhos.

Nosso presidente, quando não o era, disse que na Câmara Federal há “300 picaretas com anel de doutor”. Muita gente se assombrou com o cálculo conservador. E eu digo que o problema não é ter ou não ter o anel de doutor.

É que um criminoso tem todo o interesse e toda a vantagem em candidatar-se. Um cidadão honesto, não. Se há cidadãos honrados na Câmara, e os há, são desse tipo de gente tenaz que se dispõe a nadar contra a corrente.

Senão, vejamos. O salário é baixo. Detesto admitir que o Severino Cavalcanti tinha razão nesse ponto. Porém, se o deputado for trambiqueiro, pode aumentar o rancho roubando boa parte do salário de seus trocentos aspones oficiais, que ele tem o direito de contratar.

Para um candidato a deputado, ter um currículo brilhante não chega a ser crime... Só que crimes na ficha corrida são um incentivo muito melhor para quem quer um mandato e a conseqüente im(p)unidade parlamentar. Simples.

E o bom de tudo isso é que a campanha nivela o currículo brilhante à ficha corrida horripilante. Daqui até outubro, temos que escolher um da penca de candidatos a granel com base em foto e musiquinha. Não dá para saber o currículo, a ficha corrida e o psicotécnico, portanto temos grande chance de eleger um burro (todavia esperto), bandido ou maluco. Ou pior, ainda: “Todas as alternativas anteriores”.

É... não há como saber. Sabe como é... Estamos em 2006; ainda não inventaram a internet. Além disso, se existisse a internet, seria muito caro publicar. Caríssimo. Mais caro que fazer boné. Ah, se houvesse um jeito de saber...

Observa, Fidelito, que os políticos fogem, como vampiro de crucifixo, de qualquer possibilidade de esclarecer quem realmente são. Isso não lhes interessa. Tanto que, se têm bastante dinheiro para a campanha, investem em coisas estúpidas-descerebradas como showmício. Tudo para evitar que o povo pense, tudo para que continue sendo um gadinho fácil de enganar.

Para não cometer injustiça, Fidelito, passeei por alguns sítios de partidos na web. Tem fotos, jingles, informativos partidários, peças publicitárias, brindes do partido para levantar fundos, mas... nada de dizer todos os lugares em que cada mandatário e cada candidato estudou e trabalhou (com telefone e e-mail, claro), se foi processado ou preso e por qual motivo...

Alguns partidos chegam a dar os e-mails e telefones de deputados. Há até os que apontam para a página do deputado no sítio na Câmara dos Deputados. Lá existe uma “Biografia” com alguma informação. Claro que eles escolhem os melhores ângulos para se apresentar. Vou te contar, Fidel: todos são “Gisele Bínchem”.

Mas não é bem isso que eu quero, Fidelito. Como se fosse buscar um auxiliar numa agência de emprego, eu quero um “menu”. Quero ver se os candidatos são empresários, administradores, se foram pobres, se são ricos, de onde veio a fortuna... Daí vou poder dizer que há escolha.

sábado, 28 de março de 2009

Tem que ser macho

Publicada n'O Taquaryense em 1 de julho de 2006.

Fidel, quero falar mais sobre o Sobril, o país fictício de nome inspirado no sobro, uma corticeira que havia em sua costa. Mais ou menos o oposto do Brasil, já que o pau-brasil é incorruptível e duro, segundo o Aurélio.

Pois no Sobril há uma gente nostálgica que se apoquenta com a decadência dos costumes. Eles dizem coisas como “é o fim”, “não tem mais home no Sobril”, “no meu tempo, fio de bigode valia como contrato; hoje, nem papel reconhecido em cartório põe limite nos velhacos”.

Cá para nós, Fidelito, eu acho meio esquisito esse papo de “ser home”, pois honestidade e caráter não têm gênero. Mas, que seja. Vou contar uma história de macheza que recentemente impressionou os cidadãos do Sobril.

O presidente, de origem octária, era querido pelo octariado (que é como eles chamam o povo). Mas a casa começou a cair quando um chupim governamental de n-ésimo escalão apareceu na TV embolsando dinheiro e dizendo que era fácil roubar. O chupim virou caranguejo – um ladrão foi fazendo aparecer outro, e outro, e outro... Não que tenham puxado todos os ladrões, digo, caranguejos do balde, mas foi um montão.

Lá pelas tantas, Fidelito, já não tinha balde para caber tanto caranguejo: era amigo, era parente, era nego carregando dinheiro na cueca, até adversário político – a coisa ficou perigosa, os mais afoitos já gritavam que todo mundo era caranguejo. Mas não era nada disso, porque todos esses caranguejos aí traíram ele – o presidente, que não sabia de nada (este parágrafo se presta a leituras dramáticas com várias entonações, especialmente neste final).

Mas, calma, que eu chego na história de macheza. O negócio continuou, caranguejo enganchado em caranguejo, até que apareceu um crustáceo grande, que não se esperava: o zagueiro-central do time do presidente. O sujeito da retaguarda, uma espécie de Figueroa, para quem é mais antigo (não existem exemplos atuais; se eu falar nos irmãos Pontes do Gaúcho de Passo Fundo, é a mesma antiguidade).

Pois o becão do governo sobrileiro fora visto e revisto numa casa de tolerância da capital do país – casa essa que era um laboratório de pesquisa em sacanagem. Sabes como é, Fidel? Lá eles desenvolviam e experimentavam novos tipos de sacanagem da braba. Tecnologia de ponta, mas era coisa que dava cadeia.

Vai daí que o caseiro da casa de tolerância viu nosso herói muitas vezes lá, e foi chamado a dar testemunho frente aos nobres representantes do povo sobrileiro. Era para dizer se viu mesmo o zagueirão lá, quantas vezes, com quem, que tipo de sacanagem fazia...

Mas eis que se levanta um membro (ops!) do Judiciário sobrileiro para salvar nosso herói. Com a mais esfarrapada das desculpas, o desembargador exarou (Fidelito, é estranho como soa este verbo; posso ver os magistrados gracejando: ‘- Que crime hediondo! Vossa excelência exarou? - Eu não! Quem exarou foi vossa excelência, que falou’) que o caseiro não iria falar porque era ignorante, e caso encerrado.

Cabra macho! Ou eu não entendi, Fidel, ou ele chamou o presidente de burro, pois o caseiro era até mais instruído que o presidente. E ainda por cima caçoou dos seus colegas ingênuos que se preocupam em zelar pela própria reputação. Dar uma sentença estapafúrdia e ainda sugerir que o presidente devia calar a boca? Ala fresca! Mas que baita macho!